O HOMEM PARA LÁ DO ATLETA: DA PARALISIA À SERIE A

 

Texto de Mariana Lopes

“Uma manhã levantei-me paralisado da cabeça aos pés”.

Aos 14 anos, Fabio Pisacane, do Cagliari, viu-se confrontado com um dos piores pesadelos para quem quer seguir carreira no futebol: a paralisia. Nessa altura, o jogador já tinha entrado para a formação do Génova, um dos primeiros passos no futebol, quando lhe foi diagnosticada a síndrome de Guillain-Barré. Esta doença manifesta-se através de paralisia progressiva, o que fez com que Pisacane ficasse confinado à cama. O diagnóstico não foi fácil, nem a resposta à pergunta: e agora?, dada aos pais do atleta: “O médico disse-me que talvez ele não pudesse voltar a jogar”.

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Coma. Três meses no hospital. Mas Fabio Pisacane deu a volta. O sonho falou mais alto.

O futebol voltou a entrar na vida do jogador e quatro anos depois regressou ao clube de onde tinha sido arrancado: o Génova. Passou pela equipa principal e no final de 2005 juntou-se à Serie B.

A partir daí deu os primeiros passos em várias outras equipas, alternando entre o segundo e terceiros escalões do futebol italiano. E a recompensa por todo o esforço chegou aos 30 anos.

Pisacane não escondia que o objetivo era chegar à Serie A e quando Massimo Rastelli deixou o Avellino, na Serie B, para se juntar ao Cagliari, na Serie A, não quis deixar Pisacane, de 30 anos, para trás: “Foi o único jogador que trouxe do Avellino porque conhecia o valor do homem para lá do atleta. Seguiu um percurso similar ao meu, também me estreei na Serie A quase aos 30 anos, mas seguramente mais difícil. Um rapaz de valor excecional”.

O Cagliari vencia por 3-0 quando o técnico, que tem Bruno Alves na equipa, pôs Pisacane em campo. A estreia na Serie A, ver o objetivo alcançado e saber o quanto lutou para chegar aqui, deixou o jogador emocionado no final do jogo.

No percurso dos altos e baixos, uma certeza: «Nunca desisti», disse Pisacane no final da entrevista.

No mundo do futebol manteve sempre a integridade, até mesmo quando, em 2011, recebeu uma chamada de Buffone a oferecer-lhe 50 mil euros para combinar um jogo. Não foi fácil provar o seu lado, já que era um jovem jogador contra Buffone, com 20 anos de experiência no ramo. Mas o alívio surgiu quando as autoridades italianas investigaram este tema, na investigação conhecida por «Calcioscommesse», que fez com que Buffone fosse condenado e suspenso. Em 2016, Pisacane viu-se envolvido noutro caso de corrupção mas negou qualquer envolvimento no caso.

Se há histórias no futebol que merecem um aplauso, não pelo desempenho mas pelo percurso feito, esta é uma delas. Uma vida de lutas para Pisacane.

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