Mundial Futsal 2016. A prestação portuguesa em análise

Texto de Tó Coelho

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Primeiro jogo

Portugal 1  vs   Colômbia 1

Má entrada em jogo, bastante desconcentrados os jogadores portugueses em termos defensivos e muito precipitados no passe e na finalização. Péssima transição defensiva, principalmente na primeira parte. Após perca de bola, notou-se uma grande dificuldade nos duelos individuais na ala contra o capitão colombiano e na posição de pivô, deixando o colombiano receber e por vezes rodar e assistir.

Em termos de organização ofensiva, pouca profundidade sem Cardinal e sem 1×1 de Ricardinho. De realçar a pouca objetividade nas movimentações ofensivas nas combinações de dois, três ou quatro elementos. Muita precipitação nas reposições laterais e cantos ofensivos, optando a seleção quase sempre pela reposição rápida em detrimento dos lances de estratégia, rivalizando com uma organização defensiva nestas situações por parte da Colômbia muito débil.

Uma segunda parte bem melhor, com maior agressividade por parte do portador da bola, mais cobertura do lado contrário da redonda e mais antecipação ao pivot com saídas na transição ofensiva. Muitas combinações, com Cardinal e 1×1 de Ricardinho mais agressivo. No entanto, muito pouca eficácia na finalização.

Destaques individuais para Ricardinho e Cardinal (mal na fase inicial do jogo defensivamente), com a seleção a ficar muito dependente deles. Boas exibições de Miguel Ângelo e André Coelho (defesa do pivô colombiano na segunda parte).

Segundo jogo

Portugal 9  vs  Panamá  0

Boa entrada em jogo com a dupla Ricardinho e Cardinal mais uma vez em destaque. A seleção tirou partido de uma marcação individual muito agressiva e sem coberturas por parte do Panamá, cumprindo uma estratégia ofensiva e defensiva que revelou “trabalho de casa” por parte da equipa técnica.

Em termos de organização ofensiva: realça-se exploração da falta de coberturas tanto nos duelos individuais, suicídio perante Ricardinho, como no espaço nas costas e na combinação direta com Pivô (pouco explorada). Também nas bolas paradas, os bloqueios e duplos bloqueios libertaram muitas vezes os jogadores portugueses na finalização, tendo a opção pela estratégia em detrimento de reposição rápida surtido efeito com golos e oportunidades de golo. A seleção revelou muito maior objetividade no seu jogo, em relação ao jogo anterior, conseguindo chegar à área adversária com finalização algo facilitada. Faltava por vezes a chegada do segundo e terceiro jogadores na altura do remate final. O 1×1 de Ricardinho e a defesa exageradamente agressiva do Panamá facilitou o caminho para uma goleada marcada por um fato histórico: os seis golos de Ricardinho num só jogo, mais um recorde para o capitão da seleção, que foi muito eficaz também nos livres de dez metros. As boas movimentações com segunda e terceira entradas nas costas da defesa do Panamá podiam ter tornado o pesadelo do Panamá ainda maior (bolas ao poste e intervenções do guarda-redes adversário).

Três pontos a ter em conta: a organização defensiva bem melhor que no primeiro jogo; a boa abordagem do portador da bola após perda da mesma; e a melhor defesa do pivô, com André Coelho e João Matos a conseguirem várias antecipações ao pivô panamiano. Maior concentração na defesa das bolas paradas do Panamá e 1×1 defensivo na ala.

Na segunda parte, Portugal geriu o jogo fugindo ao confronto físico do Panamá e baixando a intensidade defensiva e ofensiva do jogo. Foi assim que procurou evitar sofrer golos, fazer faltas e ser castigado disciplinarmente.

Destaques positivos individuais para Ricardinho (6 golos), Cardinal enquanto esteve em campo, André Coelho, João Matos e para a subida de rendimento de Fábio Cecílio. Destaque negativo para a lesão de Cardinal e amarelo muito precoce de Bruno Coelho.

Terceiro jogo

Portugal 5  vs  Uzbequistão  1

Entrada no jogo com Portugal a optar por uma linha de marcação um pouco à frente da linha de meio campo. Notou-se alguma dificuldade inicial em ter a bola perto da área adversária. O Uzbequistão optou por defender em quadrante, com muitas trocas defensivas e com duas linhas defensivas bem definidas, bem atrás de meio campo, trabalhando muito bem nas coberturas. Isto não permitiu a Portugal realizar o jogo nas entrelinhas que tanto gosta. Ainda assim, André Coelho e Tiago Brito, conseguiram duas boas oportunidades na fase inicial do jogo: o primeiro após roubo de bola na primeira linha defensiva, não conseguindo finalizar com êxito depois do drible; o segundo num remate de meia distância com boa intervenção do guarda-redes uzbeque.

No que diz respeito ao adversário de Portugal, pareceu-nos inicialmente surpreendido pelo baixar da linha de marcação e não conseguiu ter sucesso com a sua estratégia de executar movimentos de, após apoio interior, explorar a ala oposta da bola com cortes nas costas. Também não conseguiu ter profundidade no seu jogo para chegar perto da baliza de Bebé (não usou o jogo mais direto).

E foi na realidade a bola parada a desbloquear o jogo na primeira parte, com João Matos  (terceira assistência no Mundial) sempre forte na tomada de decisão da bola parada a assistir Ricardinho. Este, após o desfazer de um bloqueio, fez golo ao segundo poste perante um adversário que defendeu a zona nas bolas paradas mais perto da sua área.

Pouco tempo após um time out do treinador adversário de Portugal, o Uzbequistão fez golo também de bola parada num canto em que, com alguma felicidade, beneficiou de um ressalto dentro da área. Com autogolo de Ricardinho empatou o jogo. Este golo fez com que Portugal subisse a primeira linha de marcação e, como o adversário optou por saídas de pressão mais curtas esta estratégia, resultou com Tiago Brito a roubar uma bola e a assistir Ricardinho para o oitavo golo no campeonato do mundo. Aconteceu após uma bela simulação sobre o primeiro adversário direto a fazer golo num remate com trajetória junto ao solo de “bico”. Pouco tempo depois novamente de bola parada, Bruno Coelho assistiu Ricardinho (nono golo no campeonato!!!), beneficiando mais uma vez Portugal da defesa zona uzbeque nesta situação de jogo.

Na segunda parte, a junção de dois fatores em termos estratégicos facilitou o jogo para Portugal ou seja, a subida da primeira linha uzbeque, que permitiu o reaparecimento do jogo interior português. Esta é uma situação em que os nossos jogadores se sentem confortáveis, ainda mais contra uma defesa, zona que afastou as duas linhas defensivas. O segundo fator foi sem dúvida a preparação ou o relembrar da forma mais eficaz de atacar este tipo de método defensivo, passando Portugal a ter mais paciência no ataque e a explorar as debilidades des te tipo de defesa.

Defensivamente Portugal geriu o jogo com mestria, alternado uma defesa no campo todo com uma linha de marcação mais na zona de meio campo, o Uzbequistão demonstrou boa meia distância quando Portugal baixou o bloco, mas revelou muitas dificuldades a nível técnico o que limitou a criação de desequilíbrios. O adversário de Portugal ainda tentou atacar na situação de 5×4 em duas situações de ataque com um posicionamento interessante, mas sem conseguir finalizar, com a nossa seleção a revelar mais uma vez uma antecipação estratégica desta situação de jogo mostrando estar preparada para o ataque uzbeque sem finalizadores.

Destaques individuais para Ricardinho, já com nove golos, igualando o total de golos do melhor marcador do Mundial anterior, Eder Lima, pivô russo também presente na Colômbia. Luzes também sobre André Coelho (golo histórico e muitos minutos em campo), Tiago Brito e para a  grande execução técnica no lance do golo de André Coelho. De notar o melhor rendimento ao nível defensivo, com Bruno Coelho a subir de rendimento com várias assistências, mais controlado emocional e defensivamente. Mais destaques: sempre forte na transição, João Matos, esclarecido nas suas opções/decisões; Fábio Cecílio a subir de rendimento; Bebé, com apenas dois golos sofridos em três jogos; e finalmente a grande surpresa Djô, na posição de pivô, com um golo ao segundo poste, uma “descoberta” que pode vir a ser muito útil principalmente quando Cardinal não está em campo (de realçar o facto de André Coelho ter executado bem esta função por vezes também).

Não podia terminar sem dar o devido realce ao quinto golo português, uma obra-prima primeiro individual, com um “cabrito” de Ricardinho e posterior assistência de Bruno Coelho para Djô fazer o golo. São lances destes que trazem público para os pavilhões.

Se ultrapassarmos nos oitavos de final um dos melhores terceiros, avizinha-se um duelo nos quartos-de-final com o Azerbaijão, que revelou ser perante a Espanha um adversário duro e muito agressivo (derrota por 2-4). Tem um método defensivo muito semelhante ao do Uzbequistão, principalmente quando baixa o bloco defensivo (defesa mista hxh com trocas quando está atrás de meio campo), mas com muito melhores executantes (brasileiros naturalizados) e com muito melhor jogo de pivô.

Força Portugal !!!!!

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