Selma Aj Majidi: primeira treinadora de futebol num país arabe

Numa cultura onde o papel da mulher na sociedade está ainda muito condicionado, Selma Al Majidi fez história no Sudão. A jovem de 25 anos tornou-se na primeira mulher a treinar um clube de futebol masculino, num país de maioria muçulmana. Em entrevista à FIFA, a atual treinadora do Al Nasr, do distrito Omdurman, falou das lutas, do gosto pelo futebol e das ambições.

1


A paixão pelo futebol começou desde cedo, com apenas 11 anos, quando Al Majidi acompanhava o irmão mais novo nos treinos de futebol. Sempre atenta ao trabalho do treinador, foi nesses treinos que aprendeu as bases da profissão: “Anotava tudo o que o treinador dizia ao meu irmão e aos seus colegas de equipa. Aprendi as instruções e táticas e até a forma como ele colocava os cones”. Quando chegava a casa testava os conhecimentos com o irmão, ao recordar o que tinha aprendido nesse dia.

Não demorou nem um segundo a pensar na resposta ao convite para treinar os sub-13 e sub-16 do Al Hilal, um clube de Omdurman. A primeira dificuldade não foi o facto de ser mulher, mas sim lidar com os escalões. “É muito difícil treinar adolescentes e tive de ser forte para lidar com eles. Normalmente, os adolescentes não ouvem os adultos e às vezes riem daquilo que lhes é dito. Eu aprendi a importância de ser paciente o que me ajudou bastante na minha carreira no futebol sénior”, recordou.

A jovem procurou desde cedo aumentar as qualificações como treinadora. Fez cursos na Federação de Futebol do Sudão e na Confederação Africana da modalidade. Já com a licença C, está agora à procura da licença B no futebol sudanês e africano. Graças à sua formação, vários clubes começaram a ir ao seu encontro. Al Majidi entrou assim na 3ª divisão, pelo Al Nasr, equipa de Omdurman. Tornou-se na primeira mulher a treinar uma equipa profissional masculina. “No princípio, os jogadores não queriam trabalhar comigo só porque eu era mulher. Era estranho para eles e a situação era incerta. No entanto, com o tempo, eles começaram a respeitar-me e a elogiar o meu trabalho”, recorda.

2453682_full-lnd

Al Majidi teve de lutar e destruir barreiras para mudar a forma como as pessoas reagiam ao que ela fazia. “A sociedade não olhava favoravelmente para o que eu fazia porque acreditavam que apenas os homens podiam treinar equipas masculinas. Nós vivemos numa sociedade oriental e as pessoas do Sudão têm hábitos e costumes que colocam uma barreira para as mulheres em todos os aspectos da vida, no futebol também”, disse.

A treinadora sabe que fez história e reconhece que não o fez sozinha. A família foi a base que a encorajou a seguir o sonho de criança, apesar de viveram numa sociedade tão conservadora. Pela garra e força, Al Majidi foi considerada, pela BBC, como uma das 100 mulheres mais inspiradoras de 2015. “Estou feliz por ser um exemplo de vida, no Sudão. Onde quer que vá, os meus compatriotas cumprimentam-me e dão-me os parabéns. Espero continuar neste caminho e chegar a um clube de primeira divisão ou até chegar a um nível internacional”, remata.

Mas os sonhos não param por aqui. Al Majidi quer ainda que seja criada uma seleção sudanesa de futebol feminino, com ela no comando.

Anúncios