Olegário Benquerença: do pesadelo na Luz ao sonho em África

[Um artigo de David Agostinho]

Para sempre ficará associado a um polémico Benfica-Porto. É que ele não viu uma bola que, ainda hoje, ninguém consegue dizer se terá entrado ou não na baliza portista. Quem o conhece diz que essa foi a época mais complicada da vida do antigo árbitro de futebol. Mas Olegário Benquerença foi do inferno ao céu quando em 2010 atingiu o sonho de carreira : o campeonato do Mundo FIFA.

Com as três equipas perfiladas antes do início do jogo Japão-Camarões, no dia 14 de junho de 2010 no Free State Stadium, em Bloemfontein na África do Sul, Olegário Benquerença lembrou-se da família da arbitragem, da família de sangue, dos amigos. Na estreia num Campeonato do Mundo de futebol, o agora antigo árbitro atingia aquele que sempre fora o grande objetivo da carreira, mesmo depois de superar vários momentos complicados e “ataques” que lhe foram sendo feitos: “Sofri tudo isso porque tinha um sonho que estava ali”, admite.

Manuel Benquerença, pai de Olegário e também ele antigo árbitro, conta que o filho o começou a acompanhar com cinco anos de idade. Por volta dos 10 anos começou a demonstrar dotes para dirigir jogos de futebol: “Foi um amigo que um dia chegou ao pé de mim e me disse que tinha visto, num torneio no antigo estádio de Leiria, um puto com jeito para aquilo. Longe de mim pensar quem era”.

Enquanto não tinha idade para exercer, o jovem Olegário ia jogando futebol na União de Leiria, clube da cidade de onde é natural, sempre com a ideia de que isso seria temporário, até poder assumir o apito. Em 87, então com 17 anos, fez parte de um projeto que lhe permitiu ter uma formação antecipada, fazendo dele um árbitro-jogador.

Desafiado pelo amigo de infância, Manuel Rui, Olegário podia ter feito mais uma época no Marrazes, mas foi o pai quem avisou: “Como jogador não passas da mediania, mas tens todas as condições para ser um grande árbitro”.

Para Almerinda Benquerença não foi estranho que, depois do marido, também o filho optasse pela arbitragem: “Gostava de futebol e de arbitragem e até já tenho saudades, principalmente dos jogos internacionais”. Contudo, depois de um Benfica-Porto, a 17 de outubro de 2004, Almerinda deixou de ver jogos do filho. Só voltaria anos mais tarde para a despedida, no estádio do Dragão.

Benfica  Porto e a bola que Vítor Baía deixou escapar 

“Foi o jogo mais difícil da história”, recorda Olegário, o único jogo em que os protagonistas chegaram ao estádio com batalhões de gente atrás, como por exemplo Carolina Salgado, então esposa de Pinto da Costa. Um jogo que marcava o auge da rivalidade entre o clube da Luz e o clube azul e branco. “Sete minutos antes da hora marcada para o apito inicial, esse jogo esteve para não se realizar. Existia quase o triplo de pessoas na zona reservada aos adeptos do Futebol Clube do Porto”, diz Olegário.

Segurança assegurada pela polícia no local, o jogo decorreu num bom ritmo, até que o jogador do Benfica Petit, quase do meio campo, rematou uma bola que o guarda-redes Vítor Baía não conseguiu segurar. Para os benfiquistas, a bola terá passado a linha de golo antes de ser despachada por Vítor Baía. Para os portistas, o guarda-redes defendeu à segunda.

“É um lance que me vai acompanhar toda a minha vida”, confessa o antigo árbitro antes de acrescentar: “Se me perguntam se vi se a bola entrou ou não? Não vi! Nem ninguém pode ver, dadas as características do lance”. Desse dia e dessa semana, Manuel Benquerença recorda as complicações que se seguiram. “Foi um dia antes do nosso aniversário (pai e filho fazem anos no mesmo dia, 18 de outubro). Um lance complicadíssimo que, quem já esteve num campo, sabe que era muito difícil de ver. Foram tempos muito difíceis.”

O mesmo diz Manuel Rui, o tal amigo de infância de Olegário que recorda: “Foi muito difícil para ele. Foram semanas consecutivas a receber chamadas e coisas muito desagradáveis”. Mas é o próprio Olegário que afirma que foi esse episódio que mostrou, até a ele próprio, que era feito de uma “fibra brutal”: “Ou não teria resistido a toda a campanha que me foi sendo feita durante toda a carreira, apesar de esbatida ao longo do tempo, porque deixou de fazer sentido.”

Nesse mesmo ano – estávamos em 2004 -, noutro jogo com o Benfica, meses antes em Guimarães, Miklos Fehér, avançado húngaro do clube encarnado, viu o cartão amarelo mostrado por Olegário. Sorriu, debruçou-se e caiu inanimado. “Foi a demonstração da total incompetência, incapacidade e falibilidade da natureza humana”, diz Olegário. “Podemos ser os melhores do mundo e, no momento a seguir, não somos nada”.

Exemplo para uns, amigo para todos 

Quem conhece Olegário Benquerença fala de uma pessoa tranquila, divertida e sempre pronta a ajudar. Bertino Miranda, um dos assistentes que mais vezes trabalhou com Olegário Benquerença, um dos que com ele esteve no Mundial da África do Sul,recorda o caráter protetor do antigo colega: “Como líder da equipa sempre protegeu os assistentes, assumindo as decisões por nós tomadas e, quando eram erradas, nunca nos deixou sós, assumindo ele o ónus da questão”. O árbitro assistente reforça: “Ao longo destes anos que convivemos tivemos as nossas desavenças, mas juntos criámos uma amizade que foi crescendo até aos dias de hoje.”

Presença regular nos treinos semanais de árbitros da Associação de Futebol de Leiria, Olegário é visto como um exemplo pelos mais jovens. Pedro Figueiredo conhece o antigo árbitro desde que tinha 15 anos e fala dele como uma pessoa sempre disposta a ajudar, correta, humilde e sempre disponível para a brincadeira. “Foram mesmo muitos os momentos em que ele nos fazia rir, mesmo com situações que vivia”.

Flávio Monteiro é outro dos jovens que teve a oportunidade de conhecer aquele que para ele é um exemplo na arbitragem: “Quando entramos para a arbitragem temos uma ideia errada. Pensamos que ele, por ser conhecido, deve ter a mania que é o rei, mas não. O Olegário é bastante acessível, puxa muito pelos mais novos e é amigo da malta”.

Um sonho chamado Campeonato do Mundo 

No dia que recebeu a noticia de que estava nomeado para o Mundial de 2010, Olegário teve uma atitude que um dos seus assistentes na competição não esquece: “Aconteceu ao final da tarde, e o Olegário tentou ligar para mim, para o [José] Cardinal e para o João [Santos], que éramos os AA do intitulado “Dream Team” pelo Olegário. Apesar de não ter conseguido falar com o Cardinal, pegou no carro e viajou de Leiria ao Porto de propósito para nos dar um abraço e agradecer o que tínhamos conseguido naquele dia.”

Bertino lembra-se da felicidade que o árbitro principal demonstrava no dia em que apitou o Japão-Camarões. Para toda a equipa, a presença na prova era a recompensa por todo o esforço e sacrifício ao longo das respetivas carreiras. De férias em Porto Santo, foi na ilha madeirense que Manuel Benquerença assistiu à estreia do filho na competição que todas as figuras do mundo ambicionam. Hoje, com a lágrima no canto do olho e a voz embargada, não consegue pôr em palavras a aquilo que sentiu: “Sente-se uma emoção muito forte porque um campeonato do mundo não está acessível a toda a gente. Vê-lo ali foi tremendo”.

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Manuel Rui havia prometido a si próprio que se o amigo de infância estivesse na prova africana, também ele o faria. A viagem fez-se sabendo que seria difícil ver o amigo: “Ele tinha de estar concentrado e fazer o trabalho dele”. Assim, o grupo de quatro pessoas com quem viajara Manuel foi acompanhando os jogos da seleção portuguesa. Acompanhando as nomeações do amigo, Manuel sabia que, com o passar do tempo, ficava mais complicado estarem juntos. A seleção nacional despachara a Coreia do Norte por 70, na Cidade do Cabo, e seguia-se agora o Brasil em Durban. Depois de deixar as coisas na casa que haviam alugado, o grupo resolveu dar um passeio pela cidade. “Surpresa das surpresas, o homem vinha na outra ponta da rua”, conta Manuel Rui. Olegário fora nomeado para o jogo entre Coreia do Sul e Nigéria que teria lugar na mesma cidade. “Acabámos por ir ver esse jogo, ele até teve a lata de fazer uma continência para uma fotografia. Foi fantástico”.

Depois do Japão -Camarões, e do Coreia do Sul -Nigéria, a equipa liderada por Olegário Benquerença ainda faria um terceiro jogo, entre Gana e Uruguai, dos quartos de final da competição.

A despedida 

Cinco anos depois, já com 45 anos de idade, chegou o fim. Atingido o limite de idade permitido aos árbitros de futebol, Olegário fez em 2014/ 2015 a última época como árbitro de futebol.

Futebol Clube do Porto e Penafiel já só cumpriam calendário. Os azuis e brancos viram o Benfica sagrar-se bicampeão nacional e o Penafiel já estava condenado à descida de divisão. Nessa partida, Olegário sentiu que durante a carreira conseguira conquistar a simpatia dos jogadores e que valera a pena chegar ao fim. Jackson Martinez, capitão dos portistas, fez também ele, nesse jogo, o último em Portugal. Curiosamente também o primeiro que fizera no nosso país fora apitado pelo árbitro leiriense. “Talvez já sabendo que seria o último jogo em Portugal, o Jackson fez questão de me dar três ou quatro palavras e de me oferecer a braçadeira de capitão”.

Houve ainda outro jogador que teve um gesto que Olegário não vai esquecer: “O Hélton fez questão de me abraçar, de me trazer para fora do campo e pedir um aplauso para a minha saída. Mas ele é suspeito porque esteve aqui em Leiria e fui mantendo proximidade com ele”. Do Penafiel veio ainda um convite para dirigir um jogo de solidariedade onde Olegário foi agraciado.

“Quem acredita em Deus sabe que num funeral o padre diz, antes de enterrar o cadáver, algo como: somos terra e à terra voltamos”. É assim que o antigo árbitro justifica o facto de, antes de pendurar de vez o apito, ter arbitrado um jogo do campeonato distrital de Leiria.“Nunca neguei a minha origem e a Associação de Futebol de Leiria sempre me apoiou e respeitou. Fiz questão de agradecer todo o apoio e quis mostrar aos colegas mais jovens que nunca devemos esconder as nossas origens.

Agora, poucos meses depois do abandono, o novo Olegário tem uma vida totalmente diferente: “Desde que me lembro sempre estive ligado ao desporto. Agora sou uma nova criança à descoberta de novos prazeres e novas emoções”. Uma das primeiras coisas que fez foi misturar-se com o povo. Não se considera uma pessoa de elite. E se esta mistura não aconteceu antes, Olegário diz que a culpa foi do défice educacional presente no país que nem sempre lhe permitiu uma liberdade de movimentos que considera que qualquer ser humano merece.

Hoje orgulha-se de ter chegado ao fim com dignidade. “Com erros mas, para quem fez mais de 1000 jogos, isso é normal e tive muito mais decisões acertadas”, afirma. Orgulha-se também de ter pertencido a uma geração que viveu o caso Apito Dourado e não ter sido sequer suspeito, o que, para ele, foi um certificado de qualidade. “Foi para isso que os meus pais me educaram e sinto orgulho de não os ter defraudado”.

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