CAN – A festa africana que irá prejudicar o campeonato português

“Soltem os fogos”! Começa no próximo dia 17 de Janeiro mais uma edição da Taça das Nações Africanas (Coupe d’Afrique des Nations no dialecto francês). Este ano a prova será disputada na Guiné-Equatorial depois de Marrocos, que era o país organizador inicial, ter desistido dessa função face à crise do vírus do Ébola – o país do norte de África acabou por ser afastado da competição em virtude dessa recusa.

can

Durante as próximas 3 semanas poderemos assistir a um futebol muitas vezes despido de qualquer rigor técnico-tácito mas que, em contrapartida, apresenta protagonistas com uma vontade e um querer como poucos. Não quero com isto dizer que a CAN é só “bola para a frente e fé em Deus”. Nada disso. Hoje são cada vez mais os treinadores europeus que assumem a liderança de selecções africanas (trazendo consigo processos e métodos mais exigentes). Além disso, os jogadores africanos são presença cada vez mais assídua e importante nos clubes do velho continente. O que eu pretendo dizer é que, nos jogos da CAN, é frequente ver imagens de jogadores que, apesar de estarem no limite das suas forças, fazem das tripas coração para, ao minuto 90, percorrem mais de 30 metros por uma simples disputa de bola. Para mim, espectador de um futebol moderno frequentemente jogado numa fórmula puramente lógica, é interessante assistir a jogos de futebol onde muitas vezes o coração parece prevalecer sobre a razão. Como dizia o grande Jorge Perestrelo: “é disto que o meu povo gosta!”

Mas nem tudo são rosas. Em ano de CAN, os clubes ficam sem os atletas numa altura importantíssima da época pois a competição africana tem início quando os motores das equipas começam realmente a carburar depois da paragem para férias de Natal.

A isto não fica, naturalmente, indiferente o campeonato português. São vários os clubes que vão “sofrer”: Porto (Aboubakar e Brahimi), Sporting (Héldon e Slimani), Braga (Junior Oto’o), Marítimo (Gegé), Estoril (Babanco e Balboa), Nacional (Boubacar Fofana e Kevin Sousa), Académica (Oualembo e Sallin), Gil Vicente (Ivan Cruz), e ainda, Olhanense (Sérgio Semedo).

brahimi slimani

O Porto parece ser aquele que sai mais “prejudicado”. Apesar de possuir um plantel riquíssimo para lutar pelo título de campeão, com pelo menos 2 jogadores para cada posição, a verdade é que a equipa azul e branca vê partir para a CAN a estrela da companhia: Brahimi. O génio argelino (na minha opinião, um dos 3 melhores artistas do nosso campeonato) possui, para além de uma imprevisibilidade estonteante (só ao alcance dos predestinados), uma capacidade única de inventar espaços onde muitas vezes não cabe uma agulha, sendo, por isso mesmo, uma peça fundamental em todo o processo da equipa (tendo já apontado alguns golos com nota artística muito elevada). Relativamente ao camaronês Aboubakar (e apesar deste não ter tido, até agora, uma influência crucial),acredito que Lopetegui reze a todos os anjinhos para que Jackson Martínez não se lesione durante este mês de Janeiro porque, a não ser que Pinto da Costa decida ir ao mercado comprar mais um ponta-de-lança, o treinador espanhol fica sem o jogador que se apresenta como sendo a alternativa mais válida ao Cha cha cha.

Mas os adeptos sportinguistas não devem rir da desgraça alheia. Isto porque a competição africana leva consigo o melhor marcador da equipa, ou seja, Islam Slimani. O ponta-de-lança constitui a principal referência ofensiva da equipa verde e branca e, no seu jeito muitas vezes desengonçado, o certo é que o argelino já apontou 7 golos no campeonato. Já a convocatória de Héldon para a selecção de Cabo-Verde é, no meu entender, uma situação bastante distinta e que, a médio-longo prazo, até pode trazer benefícios à turma de Alvalade. Terminada a prova (e dependendo também da sua prestação nos Tubarões Azuis), quando regressar ao Sporting Héldon pode assumir-se como uma alternativa mais válida para os corredores laterais da equipa, podendo acumular mais ritmo competitivo e ter uma participação activa em “jogos mais a sério” (se bem que, se Nani e Carrilho continuarem a jogar como até então, o cabo-verdiano não vai ter muita sorte).

A situação do Estoril também merece destaque. Embora esteja a fazer um campeonato um pouco aquém das expectativas, a verdade é que o clube da Linha vê-se privado de Babanco e Balboa. Apesar de não serem primeiras escolhas para o onze inicial, tanto um como outro têm um peso importante no plantel canarinho. Para além de estarem perfeitamente identificados com a realidade do clube, são jogadores que se apresentam como alternativas credíveis e que dão garantias a José Couceiro de ter uma equipa competitiva durante os 90 minutos. No fundo, podemos dizer que a CAN faz com que o treinador português perca um pouco da qualidade que tem no banco de suplentes. De referir que Kuca não entra neste tipo de contas porque já não é jogador do Estoril (o cabo-verdiano foi apresentado esta segunda-feira como reforço dos turcos do Karabukspor, rubricando um contrato válido por três temporadas e meia). José Couceiro vai ser obrigado a arranjar uma alternativa a Kuca mas a tarefa não se mostra nada fácil na medida em que o extremo cabo-verdiano era o melhor marcador da equipa no campeonato (levava já 5 golos marcados).

Relativamente aos demais clubes, acredito que as ausências de Oualembo (Académica) e de Boubacar Fofana (Nacional) vão ser as mais notadas uma vez que ambos são peças fundamentais nas respectivas equipas. O jogador da República Democrática do Congo traz qualidade e segurança ao sector mais defensivo da Briosa (o qual, em muitos jogos, já mostrou ser bastante inexperiente). O médio da Guiné Conacri, por seu turno, acrescenta consistência, juntamente com Ali Ghazal, ao meio-campo do Nacional.

Uma nota final para referir que o Eurosport vai acompanhar a CAN 2015 em directo, com transmissões diárias de 17 de Janeiro a 8 de Fevereiro.

Quem sairá vencedor no final da competição não sei, mas não tenho dúvidas de que será uma interessante caminhada até à glória!       

         

Texto de: André Rodrigues

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